A Marca do Pária
 

 Alexandre Lobo

O pária é, no presente texto, entendido como aquele que possui uma marca que o distingue dos demais membros da sociedade. Ele é um diferente, seja por questões econômicas, seja por questões de origem em uma maldição. Visto como inferior ou estrangeiro, ele não é exatamente um subordinado, pois não é integrado completamente na sociedade. Um trabalhador subalterno, por exemplo, é excluído do poder e do reconhecimento social, mas faz parte da sociedade, mesmo na base. O pária, de certa forma, está presente na mitologia cristã e grega. Em ambas, aparece como aquele que rompeu a ordem natural, seja por destino, seja por opção.

Na teogonia, Cronos, o titã do tempo, castrou seu pai, o Céu, com uma foice fornecida por sua mãe, a Terra. O titã temia que a história se repetisse e devorava sua prole. Zeus, entretanto, seria salvo por sua mãe, Rhéa, que o substituiria por uma pedra. Passado um tempo, Zeus, que estava escondido, voltaria para enfrentar seu pai e aprisioná-lo. Parricídio e filicídio estavam presentes na narrativa mitológica da Grécia Antiga. A história repete-se com outros atores e outros cenários. Édipo mataria seu pai, Laios, cumprindo uma profecia. Este, por sua vez, tentara o filicídio movido pelas visões do oráculo. Assim como os descendentes de Caim, os filhos de Édipo também seriam marcados. Por um destino trágico, Policine, filho de Édipo, ao atacar Tebas, acaba em uma luta mortal contra seu seu irmão Etéocles.

O ato trágico causa uma marca de estigma. Se entre os deuses e titãs não havia punição, o mesmo não poder-se-ia dizer dos mortais. Édipo, ao saber que gerou filhos com sua mãe, fura seus olhos. Se ele havia dito que Tirésias nada poderia ver por sua condição de cego, agora, por ironia, o imitava. A marca da condenação é física. Tanto Laios como Édipo são marcados no pé ou na perna. Mesmo Lábdaco, pai de Laios, era coxo.

Marcar fisicamente o renegado não era privilégio dos gregos. Na tradição judaico-cristã, o pecado foi também marcado fisicamente. Os descentes de Caim, de Canaã, cujo pai viu Noé embriagado e despido, ou de Ló, cujas filhas praticaram incesto pela descendência da linhagem após a destruição de Sodoma e Gomorra, teriam uma marca que atravessaria gerações. Essas gerações, marcadas pelo peso do pecado, seriam condenadas a vagar pela terra na condição de escravos. No caso dos filhos de Ló, temos a condenação proferida por Noé: “Maldito seja Canaã, seja servo dos servos a seus irmãos” (Gênesis, 926-26). Eis uma das passagem bíblicas que forneceu um dos argumentos para a Igreja Católica se inspirar em sua justificativa para permitir a escravidão africana e opor-se à indígena.

Poderiam os africanos ser descendentes de Caim, de Canaã ou das filhas de Ló, seriam um povo maldito, os maobitas (Gênesis 20, 37). Estes descendentes marcados com a pele escura teriam migrado da Ásia do Reino de Israel ou de Judá à África. Assim, na visão da Igreja Católica, se na Idade Moderna seriam escravizados, seria mais por cumprirem um destino, uma maldição que carregaria o peso do afrontamento a ordem natural, do que por uma atrocidade da espécie humana.

A tradicional rivalidade Ocidente/Oriente também encontra explicação bíblica, em que teríamos um povo bendito, seguidor da vontade divina, e outro, descendente de uma família marcada com o símbolo da contravenção. Historicamente, semitas eram os povos originários da Ásia Oriental, incluindo árabes e hebreus. Com o tempo, passou a designar apenas estes últimos. Ambos os povos seriam descendentes de Sem, filho de Noé, daí a origem do termo semita. Da descendência de Sem, teríamos os iemenitas, sedentarizados, e os nômades, ou seminômades que povoariam o norte da Arábia e seriam os árabes propriamente dito. Estes, a partir do século VI, seguiram os ensinamentos do profeta Maomé. Outra possibilidade bíblica para tal separação dos povos seria quando alguns hebreus se recusaram a seguir Moisés na busca da Terra Prometida, dando origem aos povos do deserto. Séculos depois, a Igreja Católica convocaria cristãos a combater aquele povo infiel de pele escura. Eram as Cruzadas em nome da reconquista do território sagrado onde teria nascido Jesus.

A ira dos deuses sobre os povos pecadores ou com conduta desviante resultaria em uma estigmatização, uma distinção dos abençoados e bem quistos aos renegados. Um povo marcado pelo pecado de seu fundador teria um destino diferenciado. Malditos, seriam escravos dos “puros”. Povos cristãos se deram o direito de escravizar os adoradores dos demônios - como eram vistos os deuses africanos - e filhos dos pecadores Caim, Canaã ou das filhas de Ló. Por outro lado, os povos do Oriente seriam representados durante a Idade Média como monstros, corpo de pessoa e cabeça de cachorro. A distinção física, embora podendo apenas imaginária no caso dos muçulmanos, servia a desumanização dos mesmos, justificando a luta pelo seu extermínio. E ao povo eleito por seu deus, a carnificina seria conduzida por inspiração divina. A luta por poder, territórios, influência e constituição de reinos feudais no Oriente tornava-se uma luta entre o bem e o mal.

Entre os gregos não havia na cultura o peso do pecado original, nem a visão da luta entre o bem e o mal. Esta é para os cristãos, herança dos hebreus. Estes, por sua vez, foram influenciados pelos persas. Na mitologia grega, havia a necessidade de manutenção da ordem estabelecida garantidora da civilização. Por meio dos mitos e da arte em geral, aedos e “dramaturgos” funcionavam como pedagogos ao relatarem a origem do mundo, feitos dos heróis que deveriam ser seguidos como exemplo de bravura e coragem, e da ordem segundo a vontade dos deuses.

Não é possível ir contra a vontade dos deuses. Édipo tentou fugir da profecia segundo a qual ele casaria com sua mãe e mataria seu pai. Fugiu em vão de Corinto para Tebas, onde, sem saber, nascera, cumprindo a profecia do oráculo. Se de início se mostrou astuto por decifrar o enigma da Esfinge que atormentava Tebas, agiu como teimoso e pretensioso ao exigir a punição para o assassino de Laios e ao ignorar e zombar de Tirésias quando este afirmava que a descoberta do criminoso traria consequências trágicas para todos. No desfecho final, Jocasta comete suicídio e Édipo, cego, abandona Tebas.

Cumprida a profecia, Édipo morre cego e sábio em Colono, próximo de Atenas. Teseu, seu protetor, enterra-o em território sagrado. Mas mesmo reabilitado pelos deuses, afinal, cumpria uma profecia, sua maldição seria herdada por sua prole. Os irmãos Policine e Etéocles matam-se em combate. Policine, por determinação de Creonte, ao ser considerado traidor, pois tentava invadir Tebas em nome do reino de Argos, não é enterrado e nem tem um funeral como ocorreu com seu irmão. Antígona, irmã de Policine, contrariando seu tio, empenha-se em enterrar o irmão Policine.

No poder, Creonte, que antes havia recomendado a Édipo aconselhar-se com Tirésias, desentende-se com este. O sábio cego havia recomendado que não executasse Antígona e enterrasse Policine. Mas transformou-se em um tirano. Inflexível, desentende-se com seu filho Hémon, noivo de Antígona. Quando percebe que haveria consequências trágicas para a sua postura, já é tarde. Os deuses reclamaram seus mortos com mais mortos. Hémon havia se suicidado após a execução de sua amada Antígona. Mais uma vez é cumprida a vontade dos deuses e há punição para aquele que rompe com ordem estabelecida pelas entidades divinas. Creonte perdeu seu filho como preço por sua inflexibilidade e por não ouvir o sábio Tirésias

A punição ao pecador, ou àquele que desafiou o destino traçado pelos deuses, tem de ser exemplar. A ordem social e religiosa tem de ser reafirmada, os pecadores ou os de conduta duvidosa têm de ser exemplo para outros, têm de revelar o caminho a não ser seguido. Desta forma, por mais paradoxal que possa parecer, o errado, o pária, tem de continuar existindo, pois ele é a reafirmação da identidade daquele que anda no caminho certo. Édipo necessita seguir seu destino para mostrar o resultado do que acontece para quem ameaça, mesmo que não intencionalmente, a ordem estabelecida. E os descendentes de Ló, Caim ou Sem, necessitam mostrar o poder e a ira de Deus.


Fonte:


KARAM, Chistian, A Arábia pré-islâmica. In:Grandes Religiões, Vol. 4 -Islamismo. São Paulo: Dueto, s.d.

LEVI-STRAUSS, Claude. A estrutura do mito. In: Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970.

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2003.

SÓFOCLES, Édipo Rei. São Paulo: Abril, 1982.

___. Antígone. Fonte Digital www.ebookbrasil.com, 2005

___. Édipo en Colono. Fonte Digital. www.librodot.com .

TOMSON, George. Os primeiros filósofos. Estudos sobre a Grécia Antiga. Lisboa: Estampa, 1974.

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